Um espaço para mulheres refletirem sobre suas vivências

11.4.16

Quando cada refeição é um campo de batalha



Nesta semana, coincidentemente, atendi duas crianças de 7 anos que comem muito mal. Uma não come o suficiente porque se preocupa em engordar, embora se reconheça como sendo magérrima. Se emagrecer mais, seu peso pode virar uma questão bem grave de saúde e demandar internação. A outra é tão seletiva que praticamente não come nada com valor nutritivo, no s...eu cardápio só tem carboidratos refinados ou fritura de imersão.

As duas, embora apresentem sintomas bem diferentes, têm o mesmo desafio: romper com um sistema de crenças pessoal e singular que orienta a vida delas em relação a comida. Para estas duas crianças e suas famílias cada refeição é um campo de batalha em potencial.
A primeira menina come muitíssimo bem, do ponto de vista qualitativo: legumes, frutas e saladas orgânicas com peixe; mas a quantidade mal alimentaria um passarinho. A outra come bastante, mas come muito mal: suas preferências são o arroz branco, batata frita e farofa. Não costuma comer frutas, legumes e verduras então nem pensar e até hoje ainda não provou coisas bem básicas como feijão e frango...
 
Tenho visto que a hiper valorização da beleza física na mídia e redes sociais tem feito reféns cada vez mais novos. Recebo no consultório cada vez mais crianças escravizadas buscando avidamente a felicidade na barriga tanquinho e no número de likes das fitos do Instagram. Por um lado vejo a valorização demasiada e precoce da imagem junto com a busca do corpo físico e da saúde perfeita, que acabam sacrificando prazer na hora de preparar os alimentos e comer as refeições. Alimentação associada a forte rigidez representa uma profunda perda do prazer em se alimentar. Também atendo crianças que têm restrições alimentares por razões alérgicas e tudo o que elas querem é poder se alimentar de forma mais livre, sem perder saúde! No outro extremo, temos aquela criança que só come o que quer e acaba da mesma forma perdendo saúde; porque, como ainda não tem idade para entender as consequências graves deste tipo de escolha para sua saúde e desenvolvimento, acreditam que não precisam ser desafiadas a agirem de forma diferente.
Sair da zona de conforto é difícil, dá medo, ficamos achando que não vamos conseguir... mas com o incentivo certo elas descobrem uma nova força e se superam. Enquanto que a primeira imaginava que tudo o que comeria seria rapidamente absorvido e transformado, quase que magicamente, em gordura, como se ela não gastasse nada em sua rotina muito ativa; a segunda imaginava que seria muito ruim comer qualquer coisa diferente antes mesmo de provar. As duas não estavam respondendo ao estímulo real (comida) mas ao que imaginavam que seria a comida, ao significado simbólico da comida.
Uma boa dica é tentar desfazer essas construções imaginárias negativas, porque sem essa resistência fica fácil mudar o comportamento.

A primeira criança ganhou uma nova consciência sobre o prazer em comer bem. Como sua personalidade é bem rígida estamos devagarzinho trabalhando que seu novo termômetro é a sua sensação de fome e não o que racionaliza ser a quantidade certa. Se temos comida de qualidade, não precisamos nos preocupar tanto com quantidade.

A segunda criança, depois de poucos meses, já come todas as frutas, salada e vários legumes. Ela se sentindo muito mais fortalecida e aberta para a vida de forma geral. Hoje reconhece como é prazeroso experimentar o novo e está descobrindo como é divertido explorar as novas possibilidades da vida.
Uma vez que conseguimos vencer nossos próprios medos fica muito mais fácil buscar a superação dos desafios e barreiras mais tarde na vida. Para estas duas crianças, uma nova forma de se relacionar com a comida representa um movimento importante de crescimento e conquista de maior autonomia.

Na arte de viver é assim: vamos conseguindo aos poucos... cada dia mais uma pequena vitória. Da mesma forma que ninguém se prepara para correr uma maratona em um dia; leva tempo, exige esforço e disciplina, tem dias que dói, mas cada pequeno passo também pode representar a possibilidade de uma grande e nova conquista!
 
 
 

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