Um espaço para mulheres refletirem sobre suas vivências

12.6.15

Vida louca - relações pobres

Por Camila Miranda
O ritmo em que vivemos está tão acelerado que os dias parecem voar. As agendas das crianças estão sempre tão cheias de dever de casa, atividades extra curriculares e compromissos sociais que pouco tempo sobra para a brincadeira livre, a contemplação e o relaxamento. Quando falo de contemplação e relaxamento não estou me referindo aquelas horas que ficam esparramadas, praticamente em transe, no sofá em frente da tv ou de alguma o...utra tela (iPad, iTouch, DS). Essa busca acelerada e competitiva para capacitar as crianças e criar uma rede social para elas ainda pequenas é tão louca que os pais vão cada vez mais encaixando tarefas e eventos nas rotinas dos mais novos.
Recentemente, fui almoçar com várias crianças e seus respectivos pais e me chamou atenção que algumas delas preferiam dar atenção às telas do iPad do que conversarem ou brincarem com outras crianças, por mais que os pais incentivassem o contrário.
Esse ritmo acelerado não constrói intimidade, muito menos ensina as crianças a se relacionarem. Para termos intimidade precisamos estar juntos, com tempo, escuta e diálogo. Precisamos estar abertos e receptivos ao outro. Sem tantas críticas, julgamentos e defesas. Para conectarmos com o outro, precisamos, primeiramente, estarmos conectados com nós mesmos. Precisamos nos manter curiosos sobre quem é o outro e abertos a possível troca positiva entre nós. Para uma vida interior rica, é necessário calma, silêncio e disponibilidade. O preocupante é que é exatamente isso que esse ritmo louco imposto por nós, adultos, vem roubando das nossas crianças cada vez mais cedo. Resultado: elas não têm paciência, não toleram qualquer pequena frustração, não tem tanto interesse no outro, tem dificuldade em se colocar nas relações de forma apropriada, crescem mantendo o egocentrismo como referência e tem muita dificuldade em focar a atenção num livro ou na aula e são extremamente imediatistas, não sabem esperar. Considero importantíssimo na formação de qualquer ser humano a capacidade de estar calmo, a habilidade de reconhecer as diferentes emoções e saber como lidar com elas de forma efetiva. É tão fundamental saber lidar tanto com a tristeza como com a alegria, tanto com a raiva como com o medo. Só que essas competências são aprendidas nas relações íntimas com seres humanos significativos, e não nas inúmeras relações superficiais estabelecidas no corre corre cotidiano.
Fica para nós adultos, responsáveis e educadores, o desafio para mudarmos alguma coisa na organização das nossas vidas para que estejamos mais disponíveis para criar um envolvimento mais humano e caloroso e, consequentemente, uma intimidade mais autêntica com nossas crianças.

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