Um espaço para mulheres refletirem sobre suas vivências

9.4.15

VAZIO AMIGO

Por Camila Miranda
Acredito que, por mais que estejamos rodeados de familiares, amigos, colegas, vizinhos e estranhos, a vida seja uma viagem solitária. A sua estrada é somente sua. A sua experiência como ser humano é única, pessoal e intransferível. Somos capazes de empatizar com os sentimentos do outro, imaginar o que ele deve estar passando na sua vida ou especular sobre como as experiências possam tê-lo constituído... Mas, nunca saberemos como é ser o outro em sua totalidade; da mesma forma que nunca ninguém vai conseguir sentir a sua experiência emocional plenamente. Neste sentido, estamos sozinhos sempre. No entanto, reconhecer, entrar em contato e encarar essa solidão quase sempre nos assusta. Vejo o quanto tentamos nos cercar de pessoas, de trabalho e de tarefas, buscando nos preencher com bens de consumo, comida e informação; nos entorpecendo com álcool e drogas com o objetivo de minimizar esse contato mais próximo com nosso vazio.
Muitas pessoas vão além, evitando até admitir a existência deste vazio para os outros, gastando muita energia na tentativa de manter a ilusão do super poderoso, embora saibam secretamente que essa
crença é nada mais que uma fantasia infantil. Acabam, então, vivendo com medo e insegurança de serem descobertos enquanto a farsa que acreditam ser... Escolhem viver a vida na defensiva com medo de serem descobertos pelos outros pelo que são: seres frágeis e vulneráveis.
O único jeito que eu conheço de preencher esse vazio é cuidando dele, reconhecendo-o, demarcando suas fronteiras e fazendo as pazes com a solidão, que aliás não precisa necessariamente ser algo desagradável, soturno e triste. Pode ser, simplesmente, uma aceitação maior, consequente de um mergulho interno mais profundo e da maior consciência de que a vida é só sua e de mais ninguém. Essa consciência individual e diferenciada pode ser mais libertadora que assustadora e, somente através do contato com essa "solidão", podemos encontrar nosso verdadeiro eu. Quero dizer, podemos aos poucos identificar quem somos de fato e nos diferenciarmos devagarzinho da construção de quem imaginamos que os outros (na maioria das vezes nossa família e amigos) gostariam ou esperariam que fossemos. Como Rumi fala, o caminho é somente nosso, então, seria um desperdício de viagem se não nos apropriarmos verdadeiramente dele, utilizando-o para expressar o que nos é único.




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