Um espaço para mulheres refletirem sobre suas vivências

19.11.14

VOANDO JUNTOS

Um neurônio, assim como um cérebro, não tem grande utilidade sozinho. Acredito que cérebros tem maior utilidade perto de outros cérebros. Apesar de em nossa civilização ocidental a noção de "eu", enquanto ser isolado, ocupar posição central na nossa subjetividade, somos na realidade seres sociais. Como numa revoada de pássaros, que parece formar um único corpo no céu. Quem me conhece sabe que com frequência observo (e fotografo!) maravilhada essa dança. Acho fascinante ver como o movimento de cada pássaro afeta e é afetado pelo movimento dos outros a sua volta. Nossos cérebros estão conectados e melhor se desenvolvem no relacionamento com os outros.

É bem fácil demonstrar este argumento para mães. Que mãe que já não acordou segundos antes do bebê começar a chorar? Que mãe que não sentiu que o seu filho não estava bem de saúde antes da aparição do primeiro sintoma clínico? Várias pesquisas científicas rigorosas comprovam a existência desta sintonia fina entre mãe e filho.

Já é estabelecido que a qualidade dos relacionamentos formativos que tivemos na primeira infância determina nossa posição inicial em relação à nossa saúde mental. Todavia, também sabemos que outras pessoas são o melhor recurso para mantermo-nos sãos. Hoje em dia sabe-se que qualquer relacionamento significativo pode impactar e reativar processos neuroplásticos e, de fato, mudar a estrutura cerebral em qualquer fase da nossa vida. Neuroplasticidade é a capacidade do cérebro e do sistema nervoso central de mudar a sua estrutura e seu funcionamento de acordo com o ambiente em que vivemos. Através da reestruturação das vias neurais, somos capazes de pensar, sentir, reagir e nos relacionarmos, conforme novas vias vão se formando.

Comprovo essas mudanças na minha prática no consultório. Vi pessoas se tornarem mais livres, felizes, mais amorosas, menos neuróticas, mais elas mesmas, mais tranquilas, mais saudáveis... Acredito que é na relação com o terapeuta, tanto quanto através das intervenções, que  estas mudanças se produzem. Mas, isso é só apenas 50% da história. Meus clientes também me transformam, também me servem como uma escola, me ajudam a crescer.

Em um relacionamento em que conseguimos ser nós mesmos, sem uma falsa persona social e, no qual estamos plenamente presentes, nossos cérebros são continuadamente moldados. Poder ver a vida através da perspectiva do outro, e não somente da nossa, pode permitir que os dois cresçam. Em contraponto, quando nos enrijecemos, perdemos flexibilidade, tornamo-nos também menos capazes de sermos movidos, comovidos, modificados e transformados pelo outro. Isso faz com que eu empobreça, tu empobreças e nós empobreçamos... Como disse Martin Buber, toda vivência real é encontro. Acredito que seja no encontro com o outro que começamos a nos conhecer.


Por Camila Miranda








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